O Que Esperar de Discursos?

Dia primeiro do ano foi também o primeiro do mandato do presidente e dos governadores: na posse ninguém fica de boca fechada. O que disse o Bolsonaro dia 1º? Segundo texto liberado para a imprensa, entre muitas coisas, disse no Congresso Nacional:

1. “convoco cada um dos congressistas para me ajudarem na missão de restaurar e de reerguer nossa pátria, libertando-a, definitivamente, do jugo da corrupção, da criminalidade, da irresponsabilidade econômica e da submissão ideológica.”

2. “ Daqui em diante, nos pautamos pela vontade soberana daqueles brasileiros que querem boas escolas, capazes de preparar seus filhos para o mercado de trabalho e não para a militância política.”

3.  ”Na economia, traremos a marca da confiança, no compromisso de que o governo não gastará mais do que arrecada e na garantia de que as regras, os contratos e as propriedades serão respeitados.”

Logo depois, na Praça dos Três Poderes:

4. “E me coloco diante de toda a nação, neste dia, como o dia em que o povo começou a se libertar do socialismo, da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”.

5. “Pela primeira vez, o Brasil irá priorizar a educação básica, que é a que realmente transforma o presente e o futuro de nossos filhos e netos, diminuindo a desigualdade social”. 

Embora poucos dos 115 mil presentes à posse tenham ouvido bem e se lembrem dessas palavras, valem a pena algumas reflexões, que seguem na ordem das citações:

1. Jair, a corrupção e a criminalidade são fenômenos humanos universais e permanentes. Para diminuir sua frequência e intensidade, todos temos lutado. Mas não faça promessas vãs, de pátria “definitivamente” livre destes males. Irresponsabilidade econômica? De quem? Submissão ideológica? À nossa consciência e liberdade? E o neoliberalismo, não é ideologia? É mais: IDOLATRIA! 

2. “Qualificação para o trabalho” (e não para o mercado de trabalho) é uma das três missões da educação, segundo o art.205 da Constituição. Onde ficam o “pleno desenvolvimento da pessoa e o seu preparo para a cidadania”? Seu cargo de oficial do exército, de parlamentar e de presidente são funções de mercado ou de cidadania? A militância política, a identificação partidária e a ação nos cargos públicos não seriam partes da cidadania a ser cultivada nas escolas? 

3. “Não gastará mais do que arrecada” só vale para o governo, Jair? E os ruralistas, podem gastar mais que produzem, adiando sempre as suas dívidas? As empresas podem tomar dinheiro do povo emprestado, via Banco do Brasil, CEF e BNDES? Uma declaração do Paulo Guedes talvez esteja no caminho certo: “é preciso arrecadar mais dos ricos”. Ou não vale mais? O urgente, sim, é diminuir as desigualdades de renda e de salários, inclusive a que separa o “salário máximo” dos ministros do STF do “seu” salário mínimo de menos de mil reais. No fim dos quatro anos de governo, se esta distância, hoje de 40 vezes, não for reduzida para 20, os pobres terão que gastar mais do que ganham e seu governo continuará a financiar sua sobrevivência, para garantir-lhes moradia, alimentação e aposentadoria. Muita atenção ao capitalismo e neoliberalismo  que nos rodeiam. Eles, sim, são a ideologia dominante de corações e mentes. 

4. Embora o Jair de ontem e de hoje não se canse de criticar a pedagogia “libertadora” de Paulo Freire, admirada em todo o mundo, inclusive nos países capitalistas – ele próprio adotou o título de “libertador”. De quais pragas? “Do socialismo, da inversão de valores, do gigantismo do estado e do politicamente correto”, Jair? Menos servidores públicos? Vamos diminuir ainda mais os efetivos das forças armadas? Extinguir o serviço militar, que nos últimos 50 anos poderia ter sido instrumento cívico de erradicação do analfabetismo, que humilha ainda hoje 13 milhões de brasileiros? Vamos fechar as embaixadas do Brasil nos EUA e na China? Libertar o povo do socialismo? O presidente vai exigir do STF que feche o PSB, o PCdoB, o PCB, o PSOL, o PT, como fez o Mal. Dutra? 

5. O Brasil, Jair, sempre investiu mais na educação básica do que na superior: nos dois últimos anos, 4% do PIB na básica, menos de 2% na superior, onde reinam as instituições privadas. Em educação pública não se pode priorizar nenhuma etapa, e, sim, qualificar a oferta. Dar a mesma qualidade (o mesmo investimento por aluno) para todos. Qual era a MENSALIDADE da creche do filho do Temer? Os R$ 4 mil ditos pelos jornais são o mesmo que as creches públicas gastam NUM ANO TODO.  Educação, por si, não diminui as desigualdades; são as escolas desiguais que constroem desigualdades dos brasileiros por toda a vida.  

O pior dos dois discursos é que, entre quase DUAS MIL PALAVRAS, uma não foi pronunciada: TRABALHADOR(A).  Jair abusou de “povo”, de “brasileiros”, de “família”. Quando falou de trabalho, referiu-se ao dos empresários. Como se produção e trabalho não viessem dos Trabalhadores... Vamos mostrar que não é bem assim! E nosso trabalho mais nobre, mais “definitivo”, é FAZER POLÍTICA!

 

Artigo do professor João Monlevade, publicado no In-Formativo Pró Notícias de janeiro de 2019

*João Monlevade é sociólogo, filósofo, mestre em administração escolar, doutor em educação pela Unicamp, atuou como professor nos níveis fundamental e médio, como professor da Universidade Federal de Mato Grosso, diretor do Sindicato dos Trabalhadores do Ensino Público do Mato Grosso, no período de 1987 -1991, membro do Conselho Nacional de Educação, entre 1996 a 2000. Ele escreveu 13 livros, um deles denominado “Treze Lições de como fazer-se Educador no Brasil”, Ideia, 2000. Autor e editor do Boletim In-Formativo dos Funcionários da Educação Básica (Pró Notícias).
Ciuabá, MT - 09/01/2019 10:45:24


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